6 de out de 2017

do verbo sonhar

e seus tempos oníricos: passado inventado, presente-quase-perfeito, futuro do imaginário.

18 de set de 2017

calma

às vezes ela passa pelos olhos, aproveitando o momento em que eles param para acompanhar um desfile de nuvens no céu, ou quando grudam num livro, esquecidos de outras paisagens, encantados pelas palavras. mas é pelo nariz que ela entra e se espalha, espaçosa, preenchendo todos os cantos com um ar mais cheio de ar. os pensamentos então giram em câmera lenta, o peito alarga e o coração espreguiça, batendo no compasso de uma felicidade quieta, que se anuncia sem disparos.
calma é assim: uma música silenciosa que muda o ritmo de tudo dentro da gente.

21 de ago de 2017

nuvens

Às vezes eu consigo ver um pensamento sendo pensado.
É só prestar atenção: as nuvens aparecem no alto da cabeça da pessoa.
Tem gente que olha pra cima e fica revirando os olhos, tentando ler o que está dentro da nuvem. Também tem quem morda a boca, no cantinho, e daí os olhos disfarçam, fingindo que estão olhando pra outra coisa e que não tem nuvem nenhuma ali.
É difícil adivinhar o quê o pensamento está pensando, mas dá pra saber o tipo. Quero dizer, quando ele é triste, a nuvem faz sombra, os olhos ficam apagadinhos, sabe? De vez em quando me confundo, porque o pensamento-preocupado também faz o maior nevoeiro. A diferença é que, nesses casos, os olhos piscam muito.
E tem o pensamento raivoso. Dá até medo quando vejo aquelas ondas da nuvem-tornado se formando. Dependendo do tamanho da raiva, a cabeça até treme. Se a nuvem é escura, sai de perto, a pessoa pode virar tempestade de uma hora pra outra.
Ah, também tem nuvem levinha, quase transparente. Esse tipo vive em volta da cabeça de quem não é desligadão. E também aparece quando a pessoa não tá prestando atenção em nada. A professora sempre diz isso, que eu vivo com a cabeça nas nuvens. Taí a prova, ela também vê pensamentos!
Pra dizer a verdade, acho difícil não ver nuvem nenhuma. Fico até admirado quando vejo uma cabeça limpinha que nem céu azul.   

12 de jun de 2017

personagens

(…) Sou o brinco conversando com a orelha, o gato que narra sua vida dentro de um apartamento, a menina que observa tudo no primeiro dia de aula, tentando encaixar a franja no rosto do novo professor de química; também sou o adolescente apaixonado pela garota mais popular da escola, e a mulher que chora a morte do pai. Pode ser só uma emoção, a mesma idade, um gesto, uma lembrança ou até um detalhe banal, como a cor dos cabelos. Ainda que nada identifique o autor, sempre há, em cada personagem, algo que o reflete, nem que seja o seu avesso, ou apenas o desejo de ser, viver ou pensar de um modo totalmente diferente do seu".

*trecho do texto que escrevi a convite da crítica e ensaísta Beth Brait, para seu livro "A Personagem"(Editora Contexto), pensando sobre "De Onde Vêm Esses Seres?", ao lado de tantos escritores que admiro. 

20 de mai de 2017

talvez comece assim

Luís, prestenção! Tem que virar a cabeça na braçada!

Para o professor de natação, esse era o seu nome, Luís.

Desde a primeira aula. Naquele dia, depois de um instante de hesitação, percebendo que o professor estava falando com ele e que, por algum motivo (que ele nunca se interessou em saber) ele era o tal Luís, ficou sendo.

Luís, Zezinho, Salomão, não fazia a menor diferença. Se arrastava pela piscina só estava lá pra parar de ouvir a mãe repetir que ele tinha que praticar um esporte. Vencido pela falta de autonomia dos seus sete anos, lá estava ele, fazendo o que não queria. Mas ali era outro, e secretamente saboreava o seu pequeno ato de rebeldia.

9 de mai de 2017

portal


(…) Como se entrasse em um templo a céu aberto, ela mergulha nas trilhas sombreadas do parque em busca de silêncio, o silêncio possível dentro da cidade, o som dos carros que passam na via expressa chegando abafados pela cortina de árvores. Enquanto lá fora a vida segue em trânsito, Beatriz entra em outro ritmo, num tempo marcado pelo tique-taque das cigarras, a conversa dos pássaros, o rumor do vento, a eletricidade calma dos insetos. E o que, antes, era uma parada eventual no meio de seu percurso, agora é o lugar-santuário onde ela se recolhe, envolvida pelo perfume verde das cabreúvas, figueiras, tipuanas, jatobás e paineiras, os troncos tatuados com tantos nomes, iniciais e símbolos de amores que talvez já não existam (…*)

(*trecho de uma história que estou escrevendo)


3 de abr de 2017

escrever

debaixo do chuveiro, dentro de uma gaveta, no recheio do bolo, na caixinha dos óculos, num galho esquisito que não combina com a árvore, na pressa do relógio, num livro esquecido na estante, na sala de espera do dentista, enquanto o sinal está vermelho, numa fotografia antiga, no supermercado, no pulo da gata, dentro da bolsa, lendo jornal, no cheiro do café, no sonho da noite que reaparece de dia, depois do susto, no meio da música. a gente sempre pode esbarrar numa ideia querendo se contar.

6 de mar de 2017

tempo

Às vezes acontece por causa de certas palavras, ou nem isso: é só o jeito de dizer. Uma música, um cheiro, coisas inesperadas de repente me levam pra outros lugares, como se eu estivesse dentro de um trem, sendo conduzida em alta velocidade enquanto olho pela janela e vejo a paisagem, imensa, passando devagar, mostrando todas as meninas que fui. Então reconheço a garota sonhadora que tem quase 13 anos e se acha tão feia e boba: aceno imediatamente, ela sorri e no mesmo instante já está dentro do vagão, sentada ao meu lado. Ajeito sua cabeça no meu ombro, aliso os cabelos longos e logo adormecemos, as duas, ninadas pelo sacolejo rápido do trem, sonhando um tempo que nunca envelhece.

10 de jan de 2017

janeiro

a calma do dia
atravessa o pensamento
caminho pelas ruas
sem sombra de nuvem
sem arranhão de vento
e penso:
que bom seria
se assim fosse o ano inteiro
esse tempo quente
e quieto e mais lento
dos dias de janeiro